Por Abda Medeiros – Antropóloga
O ano de lançamento original do Overcasting (1998) da banda cearense de death metal Obskure, já o situava como um marco de inovação por trazer uma mulher como componente fundamental não apenas na imagem, mas na força criativa central. Mais do que um detalhe, é uma declaração de entrada em um campo historicamente masculinizado. Este disco potente e criativo tornou-se instantaneamente uma marca para o underground cearense composto de múltiplas camadas, demonstrando que do Nordeste brasileiro podia brotar um som de altíssima técnica e ambição devastadora.
Com relançamentos em 2020 e 2021, em uma dessas ocasiões, tive o prazer de escrever a contracapa na versão que chegou na Alemanha. Essa viagem física do álbum até a Europa simboliza a universalidade de sua proposta. A escuta sonora que mescla atmosfera, peso e velocidade do Overcasting não envelheceu; pelo contrário, ganhou novas camadas de significado.

Sua inovação permanece atual, e seu caráter potente soa, hoje, como um manifesto atemporal. O disco é um convite ao “Fury and Motion” que mobiliza grupos como o Obskure a enfrentar o universo do rock Metal como território de disputas simbólicas e rotas comerciais. Ele não pede licença; ele invade. Cada riff acelerado, cada mudança atmosférica, cada vocal que vai do soturno ao gutural, é um passo nesta batalha.
A Obskure, com este trabalho, não apenas encontrou seu espaço, mas o criou à força, mostrando que as disputas simbólicas de um estilo de Metal, também passam pela diversidade e pela qualidade artística. Overcasting é um dos CDs na prateleira da estante da minha casa. Isso porque é a prova de que a potência criativa assume decolonialismos e transcende fronteiras.
A banda Obskure é uma das que enriquece o metal cearense, cuja força, inovação, potência e resistência, fazem parte de um cenário global de intensas disputas. Escutar Overcasting é narrar um momento de ruptura e, ainda hoje, sentir o vento forte dessa tempestade que começou no Ceará e encontrou ecos além mares de Iracema.
Abda Medeiros é antropóloga e pesquisadora do rock metal. Leia seu trabalho aqui.



