O nascimento da revista Rasura ecoando vozes de artistas locais esquecidos pelo poder público
Por Jack de Carvalho
Publicações independentes tendem a ser, naturalmente, contra-hegemônicas e circulam dando voz a pensamentos dissidentes. Uma vez que não encontram espaços para colocarem seus pontos de vista nas tribunas de casas parlamentares, mesas redondas de conselhos municipais ou na imprensa local, algumas pessoas fazem ao seu modo. Um modelo massificado pela cultura punk do “Faça Você Mesmo” ( Do It Yourself, em inglês). Se essa pessoa mora em Maracanaú, cidade de 243 mil habitantes, distante 20km de Fortaleza, é fácil entender o porquê.
Com a quarta maior população do Estado e o segundo maior Produto Interno Bruto (PIB), o município emancipado há 43 anos foi governado nestas quatro décadas por prefeitos de cinco partidos: PDS, PSDB, PR, PMDB e União. É um polo industrial que acompanha o modelo de desigualdade das cidades brasileiras. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas 52,85% de domicílios com esgotamento sanitário adequado, 47,34% estão em vias públicas com arborização e 8,1% em ruas com urbanização adequada, ou seja, contam com bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio.

Quando Rodrigo Tembiú lançou em maio de 2023 a primeira edição da revista, estava no mestrado em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Trazia consigo outros 18 nomes de artistas e articuladores culturais locais que há pelo menos 20 anos questionam a forma com que as diversas gestões trataram o tema no município. E não se trata de uma disputa pelo poder, é mesmo uma questão de dignidade. “Para os daqui: tostões. Para os de fora: milhões”, diz a frase de Sebastião Siqueira, fundador da Academia Maracanauense de Letras, na página 02 da primeira edição da revista. Ela resume bem o sentimento de quem trabalha com cultura em Maracanaú.
Movimento social monitora o orçamento
Levantamento feito pela Frente Revolucionária Maracanauense aponta, por exemplo, que dos R$ 17 milhões de reais em contratos destinados ao São João de Maracanaú de 2025, apenas 2% foram para artistas locais. Grandes bandas ficaram com R$ 10,4 milhões de reais, enquanto R$ 6,4 milhões de reais foram gastos com empresas de estrutura de eventos. Os artistas locais ficaram com R$ 329 mil reais, valor que é próximo ao de cachês pagos a nomes como Mastruz com Leite. Maior cachê do São João de Maracanaú 2026, o cantor Gusttavo Lima recebeu R$ 1 milhão e 500 mil reais por um show.
“Se a gente tirar o São João de Maracanaú como exemplo, a gente acredita que o valor investido na cultura local é menos de 0,2% do orçamento da Cultura. Nós defendemos que o investimento seja de pelo menos entre 1% e 2%”, diz Paulo Vitor, membro do Observatório de Políticas Públicas de Maracanaú ( OPPM).
Segundo ele, o setor cultural local tem enfrentado resistência do poder executivo local. O conselho municipal de Cultura ficou parado por 10 anos e não existe participação da sociedade civil na construção da política cultural da cidade. “Para se ter ideia, o último mapeamento cultural do município é de 1999. De lá pra cá, solicitamos às gestões que fosse retomado esse inventário, porque ele ajuda a direcionar as políticas públicas. Nem isso foi feito ao longo dos últimos anos. Há um investimento em grandes festas, em detrimento da cultura popular e dos patrimônios históricos”, afirma Paulo Vitor.
Nossa reportagem procurou a secretária de Cultura e Turismo de Maracanaú no dia 3 de julho para ouvir sua versão sobre os dados repassados pelo OPPM. Uma entrevista chegou a ser agendada para o dia 6 de julho, mas foi cancelada. As perguntas foram enviadas para os e-mails informados pela pasta, ligações foram feitas nos dois dias seguintes, mas não obtivemos resposta.
O espaço segue aberto para o posicionamento do governo municipal.
Cachês milionários chamam a atenção no país
A diferença entre os valores de cachês de artistas locais ao de artistas nacionais é algo que chama a atenção em todo o país. A pesquisa do De Olho nos Ruralistas, lançada este mês, analisou mais de 20 mil contratos e constatou, no que se refere aos shows realizados em 2024, 2025 e início de 2026, que cem bandas receberam, cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais. Uma centena de bandas ganhou, em pouco mais de dois anos, um valor superior ao orçamento do Ministério da Cultura para 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões.
Dentro desse top 100 há um grupo ainda mais exclusivo: o de artistas que ultrapassaram o rubicão dos R$ 50 milhões em contratos públicos. Esses 40 nomes receberam, juntos, R$ 3,08 bilhões desde janeiro de 2024. Um valor que se aproxima do recorde de captação pela Lei Rouanet, de R$ 3,41 bilhões em 2025.
Acesse a pesquisa aqui.
A que serve uma publicação independente
Surgida da necessidade de antecipar as análises da pesquisa de mestrado, a Rasura não é a primeira experiência de Tembiú com uma mídia alternativa para divulgação científica, mas não como contraponto à hegemonia da comunicação comercial. São pelo menos 20 anos de experiência ajudando a produzir fanzines, blogs e jornais comunitários.
“A metodologia da pesquisa era participativa, então quanto mais eu devolvia os dados para o público participante da pesquisa, melhor seria para que eles entendessem do que se tratava”, diz ele, hoje no Programa de Pós-Graduação em Mudança Social e Participação Política (ProMuSSP) na Universidade de São Paulo (USP).
O efeito da publicação foi imediato. “O que eu percebo é que as pessoas ficam estimuladas a produzir novos conteúdos e colaborar. Quando Paulo Vitor escreveu sobre a cultura local e o Faber Rodrigues escreveu sobre o conselho municipal de Cultura, as pessoas quiseram saber mais, queria participar desses espaços de discussão”, diz.
“A revista é um dispositivo de provocação para quem lê e, por ser colaborativa, as pessoas pegam a responsabilidade de escrever. Meu papel como editor é reunir pessoas instigadas para instigar outras pessoas. Eu faço isso como um dj, eu fico editando vozes, um coral, polifônico e dissonante.”, define Tembiú
Ele sabe que isso não garante a mudança de uma realidade, mas que contribui para que mais pessoas participem da construção da história. Sem soltar a mão de Paulo Freire, quem faz Educomunicação enfatiza diálogo e consciência de classe em seus processos.
A voz impressa de uma cidade
Na edição Nº 2, de outubro de 2023, em que se celebrava o retorno do Conselho Municipal de Cultura após mais de uma década desativado, ecoavam nas primeiras páginas as ideias de Jr Metal, um dos pioneiros do rap local com seu grupo Sertão Rap.
”Eu sou um pouco do passado que se perdeu na história
na memória de um preto que jamais acreditou na justiça.
tem que ser vivo, permanecer vivo!
quem sabe, mais cedo ou mais tarde você já é um perigo?
acredita disfarçando quase parado, andando
quase andando, correndo
disfarçando o cansaço, suor descendo do rosto.
sofrimento quase todo dia,
mas sorrindo de novo, esse é um povo que não para de
lutar pra viver. ou melhor: sobreviver!
vida que preza tem a prosa na ponta da língua
eu sou tudo isso e é essa é a minha vida”.

Na ativa desde 1993, o grupo foi recentemente citado por Abu Pereba, do O Cheiro do Queijo, em entrevista a Roberta Martinelli no programa Cultura Livre, como sendo uma referência no estado. “Tem um espaço chamado QG do Pensamento, onde vários artistas do hip hop já passaram por lá. Nós temos eles como família. A galera sempre conta essa história de que desde antes de ter iluminação pública já estava lá fazendo rap”, disse.
A mesma edição trazia um manifesto assinado por lideranças indígenas Pitaguary em defesa da retomada do seu território. Citando a Constituição Federal e legislações internacionais, Paulo Sérgio Pitaguary e Cacique Kauã Pitaguary denunciavam posseiros e defendiam o direito à terra onde seus antepassados viveram e as tradições dos povos originários são mantidas. De acordo com o IBGE, Maracanaú tem 5.111 pessoas indígenas, com 10 línguas preservadas.

Alguns dos conselheiros, como Tati Valente, Edna Martiniano, Lê Anderson e Virgínia Ramos, escreviam naquela edição sobre a expectativa de mudanças na condução da política cultural local.
Anos depois, pouca coisa mudou.
“Na época, estávamos debatendo como as Leis de Incentivo à Cultura funcionariam no município. Mas as 33 propostas para ações continuadas entregues à gestão não avançaram. O debate é como criar o circuito artístico na cidade, isso é essencial, mas não avança”, diz o músico e escritor Lê Anderson, que não faz parte da atual gestão do Conselho.
A artista e pesquisadora Tati Valente segue crítica à gestão cultural municipal. “O que a gente vê é a cidade toda feita em eventos, parece uma escola primária: tem algumas festas temáticas, a Prefeitura escolhe quem ela quer, do jeito que quer e vai levando assim. Mesmo a curadoria da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) local é criticada. É grave, a gestão não quer ouvir quem faz cultura. Não é falta de tentativa, nos colocamos para ajudar, entregamos propostas para construir a política juntos. Não é do interesse deles”, diz.
A falta de escuta por parte da gestão municipal é uma reclamação recorrente, como podemos ver na matéria do site Eco Nordeste do dia 28 de maio de 2020. Em plena pandemia de Covid-19, a Prefeitura de Maracanaú lançou um edital para que artistas gravassem lives no Teatro Municipal Doriam Sampaio, o que na prática era descumprir o isolamento social e as recomendações da Organizaçao Mundial da Saúde.
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Com Rodrigo Tembiú estudando na Universidade de São Paulo, os números 3, 4 e 5 da revista foram editados na capital paulista e ampliarm a abordagem, passando a olhar também para as lutas populares na América Latina. Somam-se na produção da revista Gabriela Almeida,Ivan Conterno, Verônica Dudiman, Rita de Cássia Marques Lima, dentre outros. O perfil colaborativo mantém seu viés educativo e popular.
A próxima edição deve sair em agosto, editada a muitas mãos a partir de Maracanaú.
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