Para alguns cearenses, pegar a estrada para o sudeste foi estratégia em algum momento da carreira. Ouvimos o relato de três deles, de diferentes épocas, sobre a experiência de migrar
Por Jack de Carvalho

Dos 205.266 votos que elegeram, em 15 de novembro de 1985, Maria Luiza Fontenele prefeita de Fortaleza, um deles foi da jovem Simone Gadelha. No dia seguinte à eleição em que o Brasil conheceu a primeira mulher eleita prefeita de uma capital, Simone, aos 24 anos, embarcou para São Paulo. Levava consigo um diploma de jornalista, seu talento musical e um refrão ecoando na cabeça: “Você precisa ir embora”.
Era o que Mona Gadelha, nome artístico batizado por Alceu Valença, ouvia das pessoas que a viam tocar pela noite de Fortaleza. “A gente já tinha uma certa tradição, um movimento repetido de artistas que começavam a sua trajetória no Ceará, mas que chegavam num ponto de precisar sair para ampliar os horizontes, para tentar alcançar um público de nível nacional e uma plateia maior”, lembra a cantora.
Esse movimento migratório citado por ela tem como uma das principais referências o Pessoal do Ceará, um grupo de artistas que no início dos anos 1970 se destacaram no mercado fonográfico nacional indo para o sudeste. Fagner, Belchior, Ednardo, Rodger Rogério e Teti, dentre outros, viveriam aquilo que os versos de um dos mais talentosos da turma, Augusto Pontes, escreveu em “Carneiro”: “Amanhã se der carneiro/vou mimbora daqui pro Rio de Janeiro. As coisas vem de lá… E vou voltar em vídeo tapes e revistas multicoloridas (…)”.
Rotina e saudade
Mona já havia ido para a capital fluminense em 1979, aos 18 anos, gravar o disco Massafeira, álbum duplo lançado em 1980 e que trazia mais uma vez artistas cearenses em bando. “Ficamos 40 dias no Rio, em um hotel em Santa Teresa. Foi um grupo de cearenses com tudo pago”, recorda. No disco ela cantou “Cor de Sonho”, composição sua entre outras 23 escritas por nomes como Ângela Linhares, Ednardo, Lúcio Ricardo, Belchior, Calé Alencar e Patativa do Assaré.
Mona passaria 28 anos em São Paulo. Do susto no período de adaptação à nova cidade ao fascínio a cada descoberta, ela lidou também com a saudade. “ Foi muito duro. Foi muito, muito, muito difícil ficar longe da família, principalmente da minha mãe”. Viveu intensamente a vida cultural, dos pequenos aos grandes shows, como os de Nina Simone e Bob Dylan, aos estudos musicais. Lizoel Costa (1956-2014), da banda Língua de Trapo, foi uma das pessoas que apresentou músicos que passaram a tocar com Mona.
Escolhido para ser porto seguro, o jornalismo foi mesmo a sua principal carreira lá. “A minha ideia era ficar em São Paulo numa situação de trabalho estável e sem arriscar muito”, diz ela, que por anos foi editora do Meio e Mensagem, o maior veículo de imprensa voltado ao mercado da Comunicação no Brasil. Mona fazia shows esporádicos, tentava montar uma banda, até que em um momento ela decidiu “ou eu saio da redação ou não vou conseguir fazer mais música”. Só em 1996, Mona lançaria primeiro disco gravado na cidade que escolheu para viver.
O álbum que leva seu nome abre a discografia que tem ainda: Cenas & Dramas, em 2000; Tudo se Move, em 2004; Salve a Beleza, em 2010; Praia Lírica: um tributo à canção cearense dos anos 70, em 2011; e Cidade Blues Rock nas Ruas, em 2013 – este também em CD ao vivo e DVD, em 2014.

Identidade
Mesmo não fazendo um som que possa ser classificado como regional, Mona subia ao palco sendo anunciada como “a cantora cearense”. “Minha origem está dentro de mim, na forma como eu canto uma canção”, diz. Havia, ainda assim, um desinteresse pela música cearense. “Eu percebia um desconhecimento da música do Ceará, ficava chocada. A música do Ceará passava batida. Belchior não parou de lançar discos, mas você não via na imprensa”, lembra.
E se desse carneiro hoje?
Os tempos são outros, Fortaleza tem um mercado mais estruturado e a indústria musical aproveita todos os benefícios da tecnologia. Ainda assim, Mona pondera que depende do objetivo do grupo ou artista. Se é fazer o circuito Sesc e participar dos festivais, por exemplo, vale pôr o pé na estrada. Mas ela reforça: é preciso ter autocuidado: “Não vale ir como Belchior ‘dormir no banco da praça’. Se for para isso não vale a pena de jeito nenhum”.
Em 2014, Mona veio fazer uma participação no Maloca Dragão e foi convidada para assumir o Laboratório da Música Porto Iracema das Artes, onde permaneceu até 2024. Em novembro de 2024 lançou o EP “Tudo se Move 20 Anos Depois”. Em 2025 lançou os singles “Do Outro Lado da Cidade”, “Mar de Riso” e “Seu Olhar”, este também com um clipe.

Retirantes
Quando decidiu se mudar para São Paulo, Régis Damasceno , 54 anos, tinha uma vida confortável com a música. Uma agenda de quinta a domingo tocando Beatles na noite de Fortaleza, mais aulas particulares e shows com a banda Cidadão Instigado pelo Nordeste. “No fundo somos um pouco retirantes mesmo”, diz o músico que em agosto de 2002 desembarcou em São Paulo. A mudança tinha dois objetivos: sua banda, que lançava seu primeiro disco O Ciclo da Decadência, e tornar-se conhecido dos artistas para tocar com eles. “Infelizmente Fortaleza não provia artistas com a agenda para você tocar com eles”, lembra.
Músico, produtor e compositor, Régis se reconhece como alguém sem muitas habilidades sociais, o que pode ter influenciado no tempo que levou para conseguir o segundo objetivo. “Eu não saio muito, não gosto de ficar por aí, conhecer gente. Então demorei uns dois anos brigando com a cidade, achando ruim, com pouco dinheiro e comparando com Fortaleza”. Entretanto, pesava a ideia de que por mais que fosse mais fácil ter muito shows na capital cearense, não era aquilo que o alimentava enquanto artista.

Habilidades
Essa barreira foi vencida com dicas do companheiro de banda Fernando Catatau, que na época já tocava com o pernambucano Otto. “Tu precisa sair mais, as pessoas precisam saber quem tu é”, aconselhava. Lucas Santana, baiano que chegava na cidade, foi o primeiro artista com quem Régis trabalhou. Foram seis anos juntos e novos convites. Vanessa da Mata, Curumin,Guizado, entre outros. “Eu gozava de uma certa versatilidade, eu gosto de tocar os três instrumentos: guitarra, violão e contrabaixo. Eu tinha essa facilidade de me chamarem para tantas coisas”, diz.
Dinheiro e tempo são dois fatores que orbitam o migrante. “A vida é cara aqui. Você tem que morar minimamente perto de onde tem estúdios de ensaio e gravação. São desafios pela natureza da cidade que é bem diferente. À tarde, se você não tem nada pra fazer em Fortaleza, vai à praia que é de graça. Mas aqui sua cabeça tem que mudar”.
Passar seis meses e dizer que tentou é errado. Segundo ele, leva no mínimo dois anos para o nome do artista circular na cena. E não basta ser bom. “Além das habilidades técnicas, tem as sociais. Fazer bem feito o que você se propõe fazer, ter pontualidade, se apresentar bem, ser uma pessoa mais discreta, falar inglês”, aconselha.
O que é ser bem sucedido?
Régis diz ver hoje artistas se mantendo, financeiramente e artisticamente, em suas próprias cidades e que migrar não é mais inevitável como se pensou um dia. Ele defende pegar a estrada quando se esgotarem as coisas na sua cena ou quando a vontade de romper horizontes aparecer. Mas ressalta que começar em outro lugar é difícil.
Para muita gente, sucesso é medido por plays, views, tamanho de público, e cada pessoa pode se agarrar a um conceito. Para Régis, pesam outras coisas. “Sucesso é continuar existindo, não é atingir um público dez vezes maior. Claro que isso é bom, mas penso em me manter interessado e fazer coisas com a música. Tocando, produzindo e tantas outras coisas relacionadas ao trabalho do músico”, finaliza o cearense que há 23 anos reside na capital paulista.
Seu trabalho solo pode ser ouvido aqui.

Descobertas
“Eu sempre quis sair daqui”. Foi com essa frase que Jonnata Doll começou a entrevista na Praça da Gentilândia, minutos antes do show no Covil Bar, em 20 de abril de 2026. Há 13 anos em São Paulo, o líder dos Garotos Solventes, pensa em voltar um dia, mas não agora. “Eu achava que um artista tinha que sair para algum lugar, mas era uma coisa muito vaga para mim durante todos os primeiros anos”, diz.
Querendo viver ao máximo a vida, Jonnata bebeu a tríade sexo, drogas e rock and roll. A dependência química atrasou os planos. “Ao mesmo tempo em que isso me deu muita vivência para compor músicas cujo impacto se deve a isso, me tirou o momento de ir para São Paulo quando eu poderia ter aproveitado uma onda que quando eu cheguei não estava rolando mais”, confessa. Ele se refere ao período em que bandas como Forgotten Boys, Montage e Júpiter Maçã estavam em evidência.
De outro planeta
Apadrinhado na cena paulistana por Fernando Catatau, Jonnata Doll estreou tocando no aniversário do programa Vozes do Brasil, de Patrícia Palumbo. “Aí eu já conheci a maior galera como a Buhr, Seu Jorge, Céu, Dado Villa-Lobos, a Priscila que depois foi minha produtora…sem o Catatau seria muito difícil, cara. E acontece muito o pessoal chegar lá e não rola, é difícil pra caralho!”. Circulou, fez tevê, rádios, festivais, tornou-se pai.
O primeiro álbum d’Os Garotos Solventes foi lançado 2 de março de 2014, já em São Paulo. Em 2016, veio Crocodilo, fruto da tutoria de Kassim na Escola Porto Iracema das Artes, escola de artes do Governo do Estado do Ceará. Até aqui Fortaleza no olhar. A cidade de São Paulo só viria influenciar o terceiro disco, Alienígena, de 2019.
É dele a música “Trabalho, Trabalho, Trabalho”:
Se mal dizendo, descendo com calor a rua torta
De terno e óculos escuro numa terça escura
Para fugir da massa acotovelante
De pessoas apressadas, sorumbáticas
Cujos telefones são membros ciborgues
Mas antes de entrar na imobiliária, ela PARA no bar… pede mais uma dose
Não gosta do gosto, mas é impossível sóbrio
Entrega o relatório, sem dar pala ao chefe
Mas o pior é a volta para casa de ônibus
Uma luta feroz por espaço
Já não cede lugar a idosos e gestantes
Põe o fone de ouvido e quer voltar para casa
Para assistir uma série, pedir uma pizza
Encher a cara até APAGAR… só acordar na quarta-feira
Trabalho trabalho trabalho
O artista punk na nova cidade encontrou sustento em trabalhos além da música.“Eu tive que fazer teatro, ser porteiro de casa de show, ser passeador com cães”, cita. Sempre com shows explosivos, de muita performance, Jonnata nunca teve problemas para se socializar. Mas em uma cena com tanta atração, é preciso mais. “Quando a gente chegou tínhamos uma produtora, a Priscila, que nos ajudou. Havia players do mercado, curadores que curtiam e viam o nosso potencial. Essas pessoas facilitaram”.
Hoje
Com o tempo, foi desacelerando. “Quando você não é mais novidade, já tem 10 anos de cena, começa a ficar de escanteio”, aponta. “Com o passar do tempo fiquei mais recluso. As drogas movimentavam muito isso e quando eu diminuí, gosto de ficar em casa, lendo livro, vendo filme”. Os bares têm diminuído. “Quando eu cheguei ainda tinha vários lugares que você conseguia tocar e está ficando mais difícil. Por outro lado, aparecem novos locais. Um deles é a Presidenta Bar Cultural, com público, dá pra tirar uma boa bilheteria. E as donas são massa”, comemora. Jonnata tem feito trabalhos com Sophia Chablau e YMA.
Mesmo longe da capital cearense, Jonnata segue referência e mantém contatos com a cena local. Uma de suas obras, “Ruas de trás”, é tocada no underground cearense. Além da música, ele hoje trabalha com musicalização em um abrigo para a população em situação de rua.




