É preciso estar bem

 

Por Jack de Carvalho

Jornalista investigativa Juliana Dal Piva fala sobre desafios da profissão em meio a tanta informação e tensões políticas.      Foto: Custódio Coimbra

A descoberta de um acervo pessoal do coronel do exército brasileiro Cyro Guedes Etchegoyen ( 1929-2012), o arquiteto da Casa do Terror de Petropólis (RJ), levou a jornalista Juliana Dal Piva (@juliana.dalpiva)e uma equipe composta por mais de 30 profissionais a contar as novas descobertas sobre a Ditadura Militar brasileira (1964 -1985) no documentário Bandidos de Farda

Lançado pelo ICL Notícias, o filme fala sobre como cerca de 3 mil páginas do acervo pessoal de um dos mais violentos personagens do regime chegaram às mãos da equipe de jornalistas em outubro de 2025. Nele, a equipe explica parte da checagem de informações e repercute as novas descobertas com testemunhas e parentes de pessoas cujos nomes fazem parte dessa história. Este é mais um trabalho investigativo da autora de O Negócio do Jair: A história proibida do clã Bolsonaro e Crime e Castigo: Como os militares mataram Rubens Paiva.  

Formada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Juliana Dal Piva é um dos nomes do jornalismo brasileiro atual cujo o reconhecido trabalho ajuda o Brasil a conhecer sua própria história. Mas sua carreira, com a de outros profissionais de imprensa, é também marcada por tentativas digitais e jurídicas de silenciá-la. “Eu não vivi a ditadura, estudei a ditadura. Não achei que minha geração ia viver o autoritarismo, a perseguição, censura e o ataque às instituições”, diz a profissional com passagens pela Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Época e O Globo. 

Participando em Fortaleza da solenidade de entrega formal das certidões de óbito aos familiares de desaparecidos políticos do período da Ditadura Militar brasileira, Juliana foi homenageada pelo trabalho em Bandidos de Farda. Em agradecimento, ressaltou: “Esse ato é uma lembrança de que democracia se constrói e se destrói. Não está dada, não está pronta. A gente faz ela todo dia quando a gente se soma a essa construção”.

A iniciativa da sessão foi do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania (CDHC) da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alc), deputado Renato Roseno (PSOL), em parceria com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC).

É preciso estar bem

Cobrir o poder, ter acesso a tantas informações de corrupção e violência e, ao mesmo tempo, tentativas de censura, é um desafio que exige cuidados aos jornalistas. Para ela, o primeiro deles é a saúde mental. “Algo que é muito negligenciado pela nossa profissão. Varia muito de cada um, se tem condições de fazer terapia e tempo de fazer atividade física. Na verdade é uma profissão historicamente problemática, jornadas extensas, muita pressão. Precisamos reconhecer isso.”

Para Dal Piva, a discussão pela redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1 também é uma pauta que interessa à categoria. “As empresas e as instituições onde trabalhamos devem se preocupar com a qualidade da vida do trabalhador e trabalhadora. Jornalista é um trabalhador que dá muito plantão e não fazemos parte de carreiras em que o plantão é bem remunerado. Nosso plantão está embutido na nossa jornada. Acabar com a escala 6×1 é bom para o jornalista também e, às vezes, o jornalista esquece que é trabalhador. Nenhum repórter vai conseguir fazer um bom trabalho se ele não estiver bem.”

Para o jornalismo investigativo, o volume de informações que demandam checagens ainda mais minuciosas é enorme. “São milhares de mensagens, áudios e páginas, um volume de dados cada vez maior para analisar e reportar. A gente investe em profundidade e investigação, não só no dia a dia. Tem desafio em termos de formação. Por exemplo, fazer um bom uso da inteligência artificial de modo a melhorar nossas condições de trabalho. A tecnologia está aí, a gente critica os problemas que ela traz, mas também temos que usar o que ela nos oferece de melhor”.

Papel social

Com tantas plataformas, a escolha do melhor formato para levar a história ao público é essencial para fazer valer todo o esforço anterior. Documentário, podcast, redes sociais, reportagem em texto, muitas são as opções. Uma questão de múltipla escolha, digamos. “Isso demanda estudo e tempo. Nem sempre é possível planejar, não é do dia para a noite, é com tempo. Eu acredito que o bom jornalismo é quando a gente consegue produzir conhecimento para que a sociedade debata e da melhor maneira possível faça boas escolhas”, afirma.

A luta pela memória, verdade e justiça é uma luta para que os horrores da ditadura não se repitam. Em 30 de dezembro de 2022, no apagar das luzes do governo Jair Bolsonaro, o Diário Oficial da União trazia a extinção da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), prevista na Constituição Federal de 1988 e criada em 1995. O despacho não trazia assinatura. O que nos remete à cena histórica de Dilma Rousseff de olhar firme cercada de militares cobrindo o rosto com as mãos.

A Comissão foi reaberta no terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Foto: Comissão da Verdade.

Ouça sobre O Negócio do Jair aqui no podcast Pauta Pública da Agência Pública.

 

 

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Jack de Carvalho

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