
Por Miguel Stadnicki* – miguelstadnicki@gmail.com
Em geral, estamos acostumados a associar liberdade à conquista de alguma coisa: dinheiro, autonomia, reconhecimento, independência. Mas o que acontece quando alguém entende liberdade como recusa? Há algo profundamente desconfortável em observar alguém que parece não querer nada do mundo. Nenhum prestígio, nenhuma estabilidade, nenhum pertencimento. O que sobra de um indivíduo quando ele decide abandonar quase tudo aquilo que se espera da vida social?

É nesse espaço incômodo que Agnès Varda (1928-2019) constrói Os Renegados, um dos filmes mais radicais de sua carreira. Conhecida por obras que questionam convenções morais e refletem sobre dilemas humanos e femininos, Varda talvez nunca tenha tratado a liberdade de maneira tão direta quanto aqui. Não como um conceito abstrato, mas como prática concreta, vivida no corpo, colocando em jogo uma questão antiga: é possível existir uma liberdade que não seja imediatamente capturada por alguma forma de estrutura social, econômica ou simbólica?
Trata-se de um road movie semidocumental que aborda a história de Mona, uma mulher andarilha de origem desconhecida cuja única informação que sabemos é o seu destino: a primeira cena já revela que a protagonista está morta. O que acompanhamos então é a jornada dos seus últimos dias de vida. O foco não é quem Mona foi ou poderia ser, mas sim o seu estilo de vida, a sua inadequação na sociedade e o seu impacto na vida das pessoas que cruzam o seu caminho. Uma escolha estrutural que constrói a personagem como uma presença que tensiona o mundo ao seu redor.
Essa recusa de uma iminência narrativa talvez seja o ponto mais essencial para ressaltar o principal conflito do filme, que é o conceito de liberdade no mundo contemporâneo. De quanto uma mulher precisa abrir mão para viver em sociedade? Qual é o preço de uma verdadeira liberdade? Varda não formula essas perguntas de maneira didática, mas as espalha nas entrelinhas de cada encontro, de cada olhar atravessado, de cada julgamento lançado sobre Mona.
A protagonista não está interessada nas respostas destas e das muitas outras questões do filme, pois não vê o seu estilo de vida como uma bandeira a ser levantada, mas como um ato de autopreservação. Ao não transformar sua escolha em discurso, Mona radicaliza sua posição. Sua existência é um manifesto silencioso.

Sejam fascinados por sua personalidade independente ou enojados por acreditarem que Mona não passa de uma marginal, essas questões são debatidas pelas opiniões ambíguas das pessoas que entram em contato com ela. São as pessoas quem definem a sua natureza e o seu valor na sociedade, nunca ela mesma. O filme constrói, assim, um retrato coletivo não de Mona, mas da sociedade que precisa nomeá-la para se sentir segura. Cada depoimento revela menos sobre ela e mais sobre os limites morais de quem fala.
A existência de Mona representa, para muitos, uma utopia de independência, liberdade e individualidade que é almejada por todos os seres humanos, mas Varda nunca romantiza essa utopia. A liberdade de Mona é árida, solitária, fisicamente desgastante. Não há glamour na errância. Há frio, fome, cansaço. Viver fora da estrutura implica pagar um preço que o corpo inevitavelmente cobra.
Desde Rousseau até os existencialistas, a liberdade costuma ser pensada como condição constitutiva do sujeito. Mas em contextos sociais concretos, ela é sempre mediada por vínculos, contratos e expectativas. A vida de Mona parece propor uma resposta radical: liberdade como recusa. Recusa ao sistema de trabalho, à domesticidade, à identidade fixa, à integração. Mas essa recusa não inaugura um espaço neutro. Ela apenas desloca o sujeito para outra forma de dependência, agora não mais institucional, mas material.
Mona é rebeldia quando não aceita se tornar o que é esperado dela. É contradição quando escolhe não politizar seu estilo de vida que é altamente político. É paradoxo quando a sobrevivência da sua alma depende da destruição do seu corpo. Mona é a personificação da verdadeira liberdade. Mona está morta.
Mesmo sem querer representar nada, Mona se torna um símbolo. O filme é categórico ao afirmar que não existe gesto puramente privado. Toda recusa é lida politicamente, especialmente quando parte de um corpo feminino. O que, em um homem, poderia ser interpretado como espírito aventureiro, nela é visto como degradação ou ameaça. Mona transgride, de maneira extrema, a noção histórica de que a mulher foi confinada à imanência. No entanto, o filme não transforma isso em uma emancipação inspiradora. Pelo contrário, mostra que a mulher que rompe com as expectativas não se torna automaticamente livre; ela se torna vulnerável a novas formas de violência simbólica e material.
Varda cria uma personagem sem início e meio, apenas fim, criando-se a noção de que a personagem está suspensa no espaço e no tempo, como uma ideia. Mona não é apenas o seu corpo físico, ela é um legado. Sua ausência de origem definida a transforma em figura quase mítica, mas não no sentido romantizado e sim como legado incômodo de uma escolha radical.Mas como uma pessoa sem amigos ou família, que morre sozinha em uma sarjeta, pode deixar um legado?
Mona não constrói nada, não acumula nada, não deixa herdeiros. O que ela deixa é a impressão. Mona atravessa a nós, espectadores, assim como atravessa as pessoas que a conhecem no filme. Se o que define Mona é o seu impacto na vida daqueles que a conheceram, seu legado ultrapassa a barreira entre o cinematográfico e a realidade. Mona é mais do que aquela mulher maltrapilha de cabelos castanhos; ela é uma parte de todos aqueles que têm a oportunidade de cruzar o seu caminho. E é por isso que sua morte não encerra o filme, ela o inaugura. Porque Mona não permanece como personagem, mas como pergunta: o que significa, afinal, viver sem concessões?
Miguel Stadnicki é cearense, morador das entrelinhas, crítico cinematográfico e estudante de Psicologia.


