Por trás do cartão postal

A fotografia periférica chega ao MIS em mostra com curadoria de Léo Silva e Karine Araújo

Foto: Beatriz Souza.

Por Jack de Carvalho

Quem para no meio fio da Avenida Barão de Studart, na altura do número 410, no bairro Meireles, em Fortaleza, consegue ver o mar a algumas quadras, na brecha que os prédios ainda dão. Esse lugar, que um dia deve ter sido duna, abriga de um lado o Palácio da Abolição, sede do governo estadual, e do outro o Museu da Imagem e do Som (MIS). De um lado, o poder. Do outro, o sonhar.

Aberta até 26 de julho, a exposição Fortaleza de Dentro, realizada em parceria com o Sobrado Dr. José Lourenço, equipamento da Secretaria da Cultura estadual, traz o olhar de 10 fotógrafos e fotógrafas dos bairros Carlito Pamplona, Conjunto Barramar (Barra do Ceará), Conjunto São Bernardo (Comunidade em Messejana), Curió, Granja Portugal, Conjunto Goiabeiras, Quintino Cunha, Residencial José Euclides (Conjunto Habitacional no Jangurussu), Mucuripe e Sabiaguaba. Compõem a exposição: Beatriz Souza, Flávia Almeida, Jef de Castro, Késsia Nascimento, Lohana Maciel, Ozeias Araujo, Sandy Albuquerque, Saulo V2nnicius, Vitória Pereira, Wesley Farpa. 

Foto: Flávia Almeida

São fotografias que chegam a ter 1,80m de altura por 1m de largura. Embaralhadas, não seguem ordem alfabética. Você vê a cidade misturada. Senhoras anônimas, crianças de bicicleta, menino pulando em rio, papudinhos. Câmeras profissionais ou amadoras, aparelhos celulares, imagens do cotidiano que não são apenas de trabalho, força e resistência, mas também o banal. No mapa em pvc na parede, é possível ver que eles estão nas bordas da cidade, longe dos cartões postais.

Esses olhares para uma Fortaleza que não aparece nos vídeos institucionais das datas comemorativas, chegam até o piso -2 do MIS por meio da curadoria de Léo Silva (@desconectaoleo) e Karine Araújo (@oh.a.kaa). Jovens também periféricos cujos caminhos se cruzam em um contexto de pesquisa, experimentação e aprendizado. 

Karine e Léo, curadores da Fortaleza De Dentro.

Respostas para Karine

O ano era 2016 e como muitas pessoas da periferia que terminam uma graduação, Karine se perguntava qual era o próximo passo. “O que eu vou fazer agora? Eu vou trabalhar? Botar currículo? Vou tentar mestrado? Eu sabia que queria outra coisa, não queria mais Química”, lembra.Chegou a pensar que trabalharia com comunicação científica, ajudando a quebrar preconceitos da população sobre o tema. Para essa mulher negra nascida e criada na Barra do Ceará, as respostas foram surgindo no curso de fotografia do Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte Che Guevara (Cuca Barra).

Fundado em 2009, na gestão da prefeita Luizianne Lins, essa unidade foi a primeira de uma série que seria entregue nas gestões seguintes. Era parte de uma política pública municipal voltada para a juventude periférica ter direito ao acesso e à produção de cultura, arte e esportes.

“Minha professora, Tamara Lopes, tinha passagem pelo jornalismo e trazia uma dimensão da imagem para além da técnica. Tinha a coisa da responsabilidade social da imagem. Aí foi que ela me pegou. Passei a ter outra dimensão sobre essa responsabilidade. O que era ter uma câmera e apontar para uma pessoa, um espaço, um ambiente e depois expor”, diz Karine. Ela passou pelo Porto Iracema das Artes, escola do governo estadual e seguiu ocupando espaços que para gerações anteriores eram ainda mais raros.

Cronista visual

Já faz mais de 10 anos que Léo Silva lança seu olhar e escreve sobre suas áreas. Nascido e criado no bairro Santa Filomena, no Grande Jangurussu, seu talento encontrou na política pública da Rede Cuca um tanto de escola, outro de contatos. Seus trabalhos com fotografia e audiovisual registram o cotidiano a partir do quintal de casa e seguem pelas ruas da vizinhança. Faz o mundo saber do seu chão. Assista Rotina Familiar aqui.

“Existe uma dinâmica da imagem projetada da cidade que não perpassa os territórios. E quando a gente vai pra mídia, a  gente pega o Jangurussu, a Barra do Ceará, o José Euclides, a gente vai vendo como essas imagens são projetadas. A gente acaba não vendo quem são as pessoas que moram lá e nem como é aquele cotidiano. A nossa ideia era sair dos cartões postais frisando principalmente esse outro olhar que está mais dentro mesmo, né? Aquele fotógrafo que está fazendo a foto da sua rua, dos seus vizinhos e assim a gente consegue trazer uma certa proximidade, você se sente acolhido ao ver aquelas imagens”, diz Léo.

Sandy Albuquerque

Escolhas

Para Léo, também foi uma caminhada longa até aqui. Mapeamentos, articulações, insistências, coletividades.“É um trajeto e tanto. A gente tem um retorno muito interessante. Já teve tantos curadores e fotógrafos ocupando o MIS e hoje tanto os fotógrafos quanto os curadores são dos territórios”, reflete.

Karine está em sua primeira curadoria institucional, algo que para ela representa um poder. “A curadoria é um espaço de poder. Levar algo, levar escolhas, levar referências. E isso requer responsabilidade. A gente que faz cultura precisa ter noção da dimensão política”. A jovem acredita que o Estado vive um momento de transformação institucional com pessoas periféricas e negras acessando postos de gestão cultural. “Na periferia tem pessoas competentes, profissionais, se especializando, pensando seu território, sua cidade e seu país”, conclui.

“Acredito que o impacto está sendo grande, matérias, uma galera elogiando. Não parei para ler críticas ainda. Mas eu vou analisá-las com o tempo, de onde elas vêm, para onde elas querem ir. Até porque são críticas que passam por corpos que estão em processo de exclusão há muito tempo”, diz. Filha de santo, Karine também trabalha com produção cultural no Terreiro Centro Espírita  de Umbanda General de Brigada e Rainha Pombogira e na Associação Cultural Afro Brasileiro Pai Luiz de Aruanda.

Feliz no simples

A parceria dos dois foi bem recebida por Doan Júnior, de 34 anos. No domingo, 31 de maio, ele visitava a exposição e levava um pouco dela pelas lentes do smartphone. “Passei minha vida toda na periferia, tem vários locais aqui que conheço”, olhando para quatro obras à sua frente. Morador da Região Metropolitana de Fortaleza, estudou fotografia e é apaixonado por cinema. “São imagens que a gente vê no dia a dia. Eu sinto muito pertencimento. A gente tem que aprender a valorizar nossa terra. A gente vê que tem felicidade em todo lugar,  não só nas obras grandiosas”.

Uma das áreas que Doan conhece está na exposição por meio do olhar de Beatriz Souza ( @bia.souzzz ), fotógrafa de rua, educadora social e comunicadora. A jovem do bairro Quintino Cunha também encontrou na Rede Cuca oportunidades que  a permitiram se profissionalizar nesta  linguagem.

Beatriz foi Top 10 da Expo Favela Ceará 2023, medalhista no Salão Nacional de Fotografia de São Caetano do Sul (SP) e recebeu o Prêmio Melhores da Cena Ceará. Moradora de comunidade, sabe bem como os alguns espaços em Fortaleza nem sempre estão ao alcance de pessoas como ela, seja como público, seja como artistas. “Expor em um espaço como o MIS é muito importante. A maioria das vezes a gente vai a um museu e não vê obras da periferia. Essa exposição vai abrir portas pra gente”, acredita.

As redes sociais impulsionaram o trabalho dela. Hoje, Beatriz se destaca não apenas fotografando, mas também ensinando essa arte a outras pessoas.  Idealizadora do projeto Original Favelart, sua presença em escolas, projetos sociais e feiras de fotografia leva a cada vez mais pessoas esse olhar sensível sobre sua cidade. A infância solta na rua foi o seu recorte selecionado para Fortaleza de Dentro. “Meu território está aqui representado pelas crianças e suas raias. Soltar pipa, soltar raia é um evento muito grande nas férias. Até para os adultos também”, diz. 

O colorido das raias, que voam alto impulsionadas pelo vento que vence a barreira de prédios da orla, é um espetáculo muito comum nas periferias cearenses. Cabeças erguidas para o céu, olhos cegos pelo sol, corpos saltando muros para pegar o troféu que é uma raia cortada. 

No piso -2 do MIS, pode-se vê-las sem pressa.

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Jack de Carvalho

Jornalista

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