Por Jack de Carvalho
Georgez lança neste 13 de julho, o álbum Aluno, eletrodrama existencial de um artista que se despede de sua juventude e das promessas de um mundo colapsado. Trabalho autoral refinado na linha post-punk e synthpop, o disco traz sete faixas, uma delas, “Proyección Astral”, com a banda T.R.A.U.M.A., que tem colaborado com o artista em diversos shows e produções.
Ouça o disco
Cambiando
Cantando e compondo na cena independente de Fortaleza desde 2004, Georgez iniciou sua trajetória como vocalista da Dead Leaves, fundando, em seguida, as bandas Januei (2014) e Lascaux (2016). Ao longo dos anos, sua música parte do indie rock e ganha camadas cada vez mais pop e eletrônicas, enquanto canta em português ou espanhol essa transição geracional. “Em 2016, eu já tinha passado muito tempo cantando em inglês e me bateu uma vontade grande de experimentar o espanhol na banda Lascaux. Comecei a arriscar mais pelo desejo de afirmar nossa latinidade. A gente é um dos únicos, senão o único país que fala português em nosso continente. Isso facilita que nos sintamos deslocados, ou que não percebamos que também somos parte da América Latina. Agora, na minha carreira solo, sempre tem uma ou duas músicas em espanhol a cada trabalho. Não abro mais mão. Além disso, os países latinos têm uma cultura muito plural e excelentes bandas de todos os gêneros musicais”.
Nas letras, referências que vão d’O Mágico de Oz à violência que abraça nosso Estado: “Um corpo boia na TV / De punhos amarrados / No mesmo mar que nos banhou / Domingo retrasado”, canta em Metal Pesado. “Essa música fala de um lugar paradisíaco que passei a habitar, que é a Taíba. Vivendo ali com meu companheiro desde a pandemia, eu tive que trabalhar em muitos lugares, inclusive na limpeza urbana como gari catador. Então pude perceber que quem sustenta esse paraíso e quem faz a festa para os turistas fascinados do mundo todo é justamente quem vivencia as realidades mais sombrias de exploração de trabalho e até mesmo de crimes mais violentos”, diz.
No palco, Georgez performa os sentimentos explícitos em sua obra. A dança da dor está em músicas como Tapa No Meu Rosto: “Olhe nos meus olhos / Grite de novo / Dê um tapa no meu rosto / Agora eu sei que eu / Te machuquei / Com toda verdade que eu falei”.
Em casa
Aluno trata, de forma subjetiva, desse momento de despertar para aspectos da realidade que não são tão aparentes e nem tão belos. É realmente como um tapa no rosto de quem estava apenas sonhando. Mas nem por isso o disco perde certa leveza, afinal, se estamos vivos, também temos o direito de sermos felizes, e, se vamos chorar pelas agruras da vida, vamos chorar dançando.
“Não é fácil trabalhar com música e envelhecer num mundo que atravessa um verdadeiro caos político, social e cultural. Na verdade é desesperador. Mas, quando perdemos o chão sob nossos pés, ou a gente aprende a lidar de alguma forma, ou será nosso fim. Por isso o nome desse trabalho é Aluno, pra lembrarmos que, na hora do maior desespero, a gente ainda tem muito o que aprender antes de desistir. E, enquanto houver vida, vai ser assim”, reflete o artista.
Todas as faixas foram captadas e produzidas por Caio Talmag, que também é músico de apoio de Georgez. No caso da música “Proyección Astral”, ela foi captada e produzida por Teo Nascimento e Henrique Severo (banda T.R.A.U.M.A.). Georgez se orgulha do disco ter sido feito em dois estúdios caseiros. “Inclusive, de uns tempos pra cá, essa cultura de gravar em casa está crescendo cada vez mais. Muita gente está montando seu ambiente de produção em casa mesmo. Muita gente está começando a trabalhar com o que tem e está obtendo resultados maravilhosos”, celebra.



