Tatuagem: na tua pele, uma história

Há uma relação de confiança entre a pessoa que vai ser tatuada e o tatuador. No Instagram, Ary compartilha algumas histórias que ele tatua.

Por Jack de Carvalho / Vídeo: Miguel Cavancanti / Foto: Arquivo Pessoal.

É em um pequeno estúdio na Avenida da Universidade, número 2475, que Ary Rocha tatua histórias que colhe com atenção. Crescido na periferia de Fortaleza em uma época em que a palavra “artista” não fazia parte do rol de profissões possíveis para jovens como ele, Ary, hoje aos 38 anos, tem múltiplos talentos: ilustração, fotografia e escuta. Assim como gosta de falar, ouve com atenção quem chega querendo eternizar na pele sentimentos que fazem parte da sua vida. Alguns muito particulares. 

Quem o acompanha no Instagram @Ary_Rocha, já viu histórias como a de Dona Rosa, que fez sua primeira tatuagem aos 80 anos. Ou da Nataly, que tatuou a mãe a partir de uma foto da última viagem que fizeram juntas. Com voz serena e firme, Ary narra em vídeos curtos algumas das histórias que passam pelo seu ateliê. 

Para chegar até a tatuagem, Ary teve que “capinar um mato”, metáfora para dizer que abrir caminhos era a única forma de chegar lá. Contou com ajuda de Bobô, um amigo tatuador morador do bairro Serrinha, a quem é grato. A pele de uma pessoa seria, sim, mais um suporte para mostrar seu talento. Percebeu, porém, que queria ir além do tradicional. Tatuagens únicas para histórias únicas.

“Aquela pessoa vai carregar na pele a história dela. É o símbolo que ela deseja ter ali. Então, me colocar como um ouvinte e utilizar essa técnica para fazer com que aquela pessoa tenha um entendimento e autoconhecimento através da tatuagem, é o objetivo e o propósito”

O ouvido antes da agulha

A escuta às vezes é rápida, algumas pessoas já sabem muito bem o que quer. “Eu quis trabalhar com esse modelo. Esse processo é no intuito de entender que histórias e significados estão ali, para que eu possa elaborar o melhor desenho possível”, explica. No início, ele confessa, foi difícil. As pessoas eram mais fechadas, menos dispostas a se abrir para um estranho com uma máquina de tatuar na mão. Hoje é diferente. Talvez pelos vídeos que ele publica, contando histórias de outros clientes, as pessoas se reconhecem, se sentem convidadas a também contar as suas. Chegam já mais abertas. Chegam, de certa forma, já confiando.

Nunca se está pronto para tudo

As histórias chegam, cada uma com seu peso. Uma delas foi em uma irmã de vítima de feminicídio que afetou Ary. “Eu fiquei em um estado de tristeza. Tive que ter um manejo de dar um respiro que algumas histórias duras vão acontecer e que, se me afeta, é porque isso é humano”. Mas ao final do processo, fica o sentimento de que a tatuagem é, em alguma medida, um símbolo de conforto pela dor da perda. 

Nem tudo, porém, é peso. Há a história da professora Teresa, cujo filho autista subiu ao palco de um festival de música e se apresentou, rompendo uma uma barreira que muitos ao redor talvez nem soubessem que existia. Outra  tatuagem foi um ponto e vírgula. Discreta, a tatuagem ajudou uma pessoa que enfrentava questões relacionadas à saúde mental a se ancorar durante uma crise. “Tempos depois ela me disse ‘muito obrigada, porque essa tatuagem aqui me salvou mais uma vez’”, conta.

O pacto

A primeira tatuagem que Ary fez foi em si mesmo. Escolheu um bico de pena, como quem faz um pacto. “Em momentos de dúvida se eu desisto ou continuo na profissão, olhar para esse desenho na própria pele me fazia lembrar que estou escrevendo sua história, independente dos percalços, independente da dureza do caminho”, finaliza.

Assista a entrevista clicando aqui:

Ary Rocha. Foto: arquivo pessoal.

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Jack de Carvalho

Jornalista

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