O rock feito por mulheres em Fortaleza

Por Ariane Paixão*, mestranda em História na UECE

ariane.paixao@gmail.com

Minha relação com o rock cearense surgiu na adolescência, na primeira metade dos anos 2000. Era um tempo sem redes sociais ou celulares, onde a gente se distraía vendo clipes na TV União — “Jovem de cara e de coração” — e comentando cada detalhe com os amigos do colégio. Eu morava em um bairro minúsculo próximo ao Conjunto Esperança e esperava ansiosa pelos festivais no Polo de Lazer. O que eu queria mesmo era ver a “banda da Val” (a vocalista Valescia); ver a Val no palco era como ver um pouco de cada uma de nós, mesmo quando ainda nem conhecíamos palavras como “representatividade” ou “empoderamento”. 

Em 2015, cursando História na Universidade Estadual do Ceará (Uece), atravessada pela minha própria subjetividade de quem sempre amou o rock mas não tinha ritmo para “bater” uma palheta, eu comecei a pesquisar a história das mulheres no punk cearense. E você pode até me questionar o porquê do punk, e eu vou te responder que o punk é o começo de tudo. O punk rock é o gênero que difundiu através da sua prática, o “do it yourself”, que qualquer garoto e garota da periferia, oriundos da classe trabalhadora, podiam formar uma banda de rock. E além disso, o punk tem na sua estética musical, filosófica e na moda, toda a expressão da rebeldia que os jovens sentem na adolescência. 

Assim, fiz um levantamento sobre pesquisas que ressaltavam a importância das bandas femininas no rock a partir da década de 1980, encontrei uma coisa e outra no eixo Rio – São Paulo, mas nada na cidade de Fortaleza. Até hoje, as pesquisas que lançam seu olhar sobre o rock em Fortaleza tendem citar as bandas femininas apenas como parte de um ‘todo’ genérico. Falta o fôlego para problematizar, questionar e, principalmente, apontar o motivo real de ainda contarmos dez bandas de homens para cada banda de mulheres. Essa lacuna permanece intocada. 

Haru e A Corja! Foto: Miguel Cavalcanti.

Um exemplo nítido dessa disparidade está diante de nós agora, em 2026: ao acessarmos o site da Associação Cultural Cearense de Rock (ACR), na seção de bandas, encontramos onze grupos exclusivamente masculinos, e lá no final, a última banda, é a única banda com vocal feminino: Haru e a Corja. E sejamos francos: sabemos que a Corja ocupa aquele espaço porque a Haru alcançou uma projeção nacional indiscutível, fruto de um talento incrivelmente singular. Ela detém uma técnica vocal tão potente que muitas bandas masculinas sequer conseguem concorrer. 

O que minha pesquisa questiona é justamente isso: por que o talento feminino precisa ser ‘fora da curva’ ou ‘incrivelmente superior’ para apenas ser notado e incluído em uma lista oficial? Por que a trajetória das mulheres ainda é tratada como comum, e igual, quando vemos que não é? Por que os homens da cena começaram a discursar como é importante valorizar as minas, mas de um modo geral, eles não ocupam em criar uma cena que seja favorável à participação massiva das mulheres?” É por isso que a pesquisa que eu venho desenvolvendo desde 2015 é tão importante, porque além de apontar que ser uma mulher artista no rock é muito mais difícil exclusivamente pelo fato dela ser mulher. 

Minha pesquisa aponta todas as estruturas sociais que tornam a trajetória das roqueiras quase impossíveis, o que impacta no número de garotas que se aproximam da cena, e que venham a ter coragem de enfrentar os desafios impostos ao gênero para fazer parte de uma banda. Ao problematizar essas estruturas fica muito mais fácil encarar as soluções. Quando iniciei a pesquisa sobre o movimento punk em Fortaleza, não buscava apenas datas ou nomes de bandas autorais. Eu buscava entender, através das bandas Resistência Desarmada e Zueira, as tramas sociais que permitiram a jovens mulheres ocuparem o palco e a rua em uma época de muitas transições sociais e políticas. 

Banda Alcalina. Foto: Enrico Rocha/Divulgação

Ao analisar matérias de jornais da época e conversar com as pessoas que viveram esse momento histórico, entre o final dos anos 70 e o início de 80, me deparei com trajetórias marcadas pela contradição e pela força. A minha inquietação com essas trajetórias femininas não parou nos anos 80. Hoje, no Mestrado em História da UECE, sigo puxando esse fio, a partir das bandas Dress, Alcalina e Desire, para entender como aquele ‘barulho’ pioneiro ecoou nas gerações seguintes. Se na década de 80 o desafio era afrontar a sociedade, suas leis retrógradas, o conservadorismo e a ditadura militar para poder ocupar o espaço, na década de 1990, as garotas gozavam de direitos sociais alcançados pela constituição de 1988, mas travaram batalhas de gênero tão “sutis”, que os homens certamente não tiveram que encarar.

Assim, a partir de 1996 percebi o surgimento de algo novo: a formação de uma cena rock feminina em Fortaleza com voz e narrativa próprias. Em minha dissertação, busco entender se essa explosão criativa que aconteceu na cidade de Fortaleza até 2010, bebeu da fonte do movimento internacional Riot Grrrl ou se foi, genuinamente, o legado das mulheres que eu encontrei lá atrás, nas calçadas do Monte Castelo ou no fervor da Praça do Ferreira. Investigar essas linguagens é, para mim, uma forma de garantir que a história do rock cearense seja contada por quem resistiu às diversas opressões de gênero e a construiu: as mulheres. 

Ao olhar para essa linha do tempo, de 1980 a 2010, percebo que o rock em Fortaleza nunca foi só sobre música. Foi sobre a ocupação de uma cidade que tentou silenciar vozes femininas, mas que acabou sendo palco para a sua mais barulhenta e necessária libertação.

*Ariane Paixão é mestranda pelo programa de Pós Graduação em História, Cultura e Espacialidades PPGHCE da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Graduada pela UECE em História/Licenciatura, possui experiência de pesquisa na área de juventude, gênero, e história das mulheres, urbanidades, processo civilizador, capitalismo e práticas letradas.

Jack de Carvalho

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