A letalidade policial entrou pela porta da frente de uma casa simples do interior cearense, em uma madrugada que parece nunca ter fim.
Foto: Deborah Duarte
Por Jack de Carvalho
Na madrugada de 1º de julho de 2020, Mizael Fernandes Silva Lima, 13 anos, foi assassinado com um tiro de fuzil, enquanto dormia na casa da tia, na periferia do município de Chorozinho, a 70 km de Fortaleza. Dois policiais militares foram acusados do crime: um como autor do disparo, outro por alterar a cena do crime. Passados seis anos, ninguém foi responsabilizado. Testemunha do crime, a tia está desaparecida há três anos. A avó morreu sem ver justiça.
Naquela noite, três policiais militares do Comando Tático Rural (Cotar) da Polícia Militar do Ceará procuravam um homem de 25 anos acusado de cometer crimes na região. Com informações de que o alvo das buscas estava em uma casa no Residencial Irmã Alzira, os militares cercaram a casa da tia do adolescente e ordenaram que todas as pessoas saíssem do local. Um dos policiais entrou e um único disparo matou Mizael.
Mizael cursava a 8ª série em uma escola pública e àquela altura do ano, nos primeiros meses da pandemia de Covid-19, se preparava para estudar de forma remota. Estava na casa da tia naquela noite para ir a uma consulta médica nos dias seguintes.
Em entrevista à reportagem da BBC, publicada em 8 de julho de 2020, a tia afirma que foram cerca de 50 minutos entre o início da ocorrência e a limpeza da cena do crime, também atribuída aos agentes de segurança. A família foi impedida de entrar na casa e, embora levado para o hospital pelos próprios militares, Mizael não resistiu.
Caso ainda não foi julgado
De acordo com o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), nas declarações dos agentes na delegacia plantonista, foi relatado que o adolescente estava armado, o que a família negou. A perícia não identificou nenhum traço genético que ligasse o objeto à vítima.
Entretanto, o MPCE, que havia denunciado em 3 de junho de 2022 um dos policiais pelo homicídio de Mizael, decidiu em 2025 pedir absolvição do acusado e entender ainda que não houve fraude processual. No caso, não teria havido alteração da cena do crime. A Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE), por sua vez, sustentou a acusação, apresentando laudos e depoimentos sobre o assassinado ter acontecido enquanto Mizael dormia. Defendeu também ter havido manipulação na cena do crime. Em maio de 2025, a Justiça confirmou que dois policiais iriam à júri popular, o que até agora não ocorreu.
Dados
De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 6.519 pessoas foram mortas pelas polícias de todos os estados durante o ano de 2025. O Ceará ocupava a 8ª posição no ranking nacional com 199 homicídios. A Bahia liderava com 1.569.
Apenas no primeiro bimestre de 2026, o Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) registrou 22 Mortes por Intervenção Policial (MIPs) no Ceará: Itapipoca (5 casos), Monsenhor Tabosa (5), Crato (4), Barreira (4) e Ibiapina (4).
Mães na luta por justiça e reparação
Mulher negra, a mãe de Mizael segue na luta por justiça e encontra amparo em uma rede de apoio. Uma dessas instituições é o coletivo Mães da Periferia. Formado em 2020 por 12 mulheres, todas mães de vítimas de violência policial no Ceará, o grupo teve início com a chacina da Grande Messejana, também conhecida como chacina do Curió, no dia 12 de novembro de 2015. O coletivo luta por memória, justiça e reparação.
Ela também encontrou amparo na Rede Acolhe da Defensoria Pública do Estado (DPCE), que busca diminuir a revitimização e os danos causados pela violência, reduzindo os potenciais de ocorrências de novos crimes e amparando os familiares, em grande maioria, mulheres.
No Brasil, diversos movimentos locais formados em sua maioria por mulheres que perderam seus filhos para a violência cometida por agentes de segurança do Estado, lutam por memória, justiça e reparação. Juntos eles formam a Rede Nacional dde Mães e Familiares de Vítima de Terrorismo do Estado.
Mais:
Leia aqui a carta política do 7º Encontro da Rede.
No site do Desterro Jornalismo, você encontra uma matéria sobre o 9º Encontro da Rede realizado este ano em Curitiba, Paraná. Acesse aqui.
Acompanhe o Comitê de Prevenção e Combate à Violência da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) aqui




