Clube de leitura da biblioteca estadual vira uma comunidade de pessoas dividindo mais que o gosto por livros
Por Jack de Carvalho
Inês Ramalho, 70 anos, afirma que nasceu para ler. Quixadaense em Fortaleza desde os seis anos de idade, diz orgulhosa ter lido 1.713 livros, quase o dobro da meta estabelecida por ela mesma. E isso tem um motivo: “Leitura para mim é medicinal”. Embora a comerciária aposentada tenha ganho o primeiro livro apenas aos 15 anos, Cazuza, obra de Viriato Corrêa, a fez superar um complexo. “Eu era uma pessoa cheia de preconceitos, me sentia a pessoa mais feia do mundo”.
Publicado em 1938, o livro do autor maranhense conta a história do menino Cazuza e sua experiência com a rigidez e o punitivismo das escolas no século XIX no interior do Estado. “Quando terminei de ler me senti outra pessoa. Eu usava um lenço preto achando que escondia minha feiura e então joguei o lenço fora. A partir daquele momento botei uma meta: ler mil livros”, diz.

Se a leitura curou Inês do que a angustiava, ela tratou de manter as doses em dia. O hábito entrou no cotidiano da trabalhadora e, na volta para casa após o expediente, era uma mão na alça do ônibus e outra segurando um livro. Mas Inês não é o tipo de leitora que se contenta com a solidão da leitura silenciosa. Ela gosta de soltar sua voz em coletivo. Nas rodas dos clubes de leitura, compartilha sua paixão. Foram mais de 13 anos no Praça Literária do Serviço Social do Comércio (Sesc), outros tantos no Clube do Leitor do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB).
Hoje, um deles é o Meu Tempo é Agora, realizado quinzenalmente nas manhãs de sábados na Biblioteca Pública Estadual do Ceará (BECE). Voltado a pessoas com 50 anos ou mais, funciona há cinco anos e com o tempo ganhou frequentadores adolescentes e jovens. Ficou intergeracional. Quem também está lá é Luis Gonzaga Rodrigues Filho, doutor em Física e professor do Departamento de Integração Acadêmica e Tecnológica (DIATEC) do Centro de Tecnologia (CT) na Universidade Federal do Ceará (UFC), casa onde construiu sua trajetória acadêmica na pós-graduação. Além de leitor, ele coordena o Projeto Literatura, Engenharia e Reflexões (LER), no Campus do Pici, que desde 2017 funciona como um clube de leitura aberto à comunidade acadêmica.

A muitas vozes
Na manhã do dia 30 de maio de 2026, Luis distribuía no clube da BECE, exemplares de uma publicação tamanho A5, impressa digitalmente, miolo branco com capa amarela. Nele, 17 textos de diversos autores, indo de Clarice Lispector a Talles Azigon. Deste último, a roda ouviu a leitura de “300 vezes eu declarei meu amor por ti”, uma crônica sobre os 300 anos de Fortaleza. O impresso da vez era especial pelo aniversário do Projeto Livros Livres, da UFC. Com ajuda de seis estudantes, quatro deles bolsistas, o LER realiza atividades geralmente no horário do almoço de quem está naquele campus. “A gente se reúne semanalmente e discute as principais ações”, explica.
A leitura sempre fez parte da vida de Luís, influenciado pela madrinha, também sua tia paterna. Já estudante de graduação, dividia entre o interesse pelas leituras técnicas e o gosto por biografias dos grandes cientistas. “Eu li a biografia de quase todos da área de Física, como Newton e Einstein, e conheci a divulgação científica que é um gênero literário”. Já professor universitário, Luiz percebeu que parte da dificuldade de aprendizagem dos estudantes tinha a ver, em alguma medida, com a falta de leitura. O clube de leitura na universidade é uma forma de incentivar essa mudança de hábito. Os encontros são quinzenais, com cerca de 25 pessoas, em sua maioria jovens estudantes.
Participar de um clube de leitura era o sonho de Kika Freitas, 69 anos. “Mas o que é que me barrava? A história de você ter que comprar o livro, ler e dissertar sobre ele no meio de um monte de gente. Eu queria uma coisa mais livre, não ter que ler um autor que talvez eu não gostasse”. Ela chegou ao clube de leitura da BECE há um ano, convidada por um amigo.“Me estimulou profundamente. Eu gostava de ler, mas de vez em quando vinha aquela pausa. Agora eu não consigo mais dar pausa porque tem sempre novas leituras apresentadas pelos participantes.”

Diferente da maioria de outros clubes, onde o grupo lê e discute o mesmo livro, na BECE cada pessoa leva um livro ou texto que gosta muito. “É bacana porque aparece todo tipo de livro e de texto”, diz Fernanda Meireles, educadora, comunicadora e multiartista. Idealizadora e mediadora do clube, ela conta que as pessoas chegam e, antes de lerem um trecho, contam a sua história com o livro que levaram naquele dia. “E nisso tem gente que chega muito tímido e diz que foi só ouvir, assim como tem gente que com o tempo começa a trazer textos autorais porque passa a se sentir mais à vontade para escrever”.
Eduardo Luiz, poeta, levou uma coletânea encadernada com um punhado de suas poesias, algumas já publicadas em seus livros. Há dois anos, atividades de escrita começaram a fazer parte do clube, por meio de cartas escritas pelos membros para os colegas de roda. “Ah, mas eu não conheço bem fulano. Escreva sobre isso”, incentiva Fernanda. Os nomes são sorteados, mantidos em segredo e a carta é escrita em casa. No encontro seguinte, é lida para o grupo.
A gente nunca sabe o que vai acontecer em um clube de leitura. “Lá, parece que quando as pessoas chegam, todo mundo se dilui em um estado de espírito muito tranquilo e divertido. A gente não tem tabu de falar de morte e doenças, por exemplo”. Vez por outra um texto faz rir, como a história que João Bosco escreveu à mão numa folha de caderno, sobre o ladrão que chamou a vítima de nome. Autobiográfica, ele diz. Lembrança da infância, guardada na memória. Todo mundo riu. Mas tem texto que, por um motivo ou outro, faz chorar. Quando isso acontece, alguém vai lá e empresta sua voz.
No último sábado de maio, um texto Aroma de Poesia, de Adélia Prado, lido por uma das participantes, dizia: “a capacidade de se emocionar vem daí, quando nossos compartimentos são escancarados de alguma maneira”. Essas caixas que abrimos, as memórias, trazem de volta o que eternizamos.

Não estamos sozinhos
No grupo de whatsapp do Meu Tempo É Agora, das setenta pessoas, umas trinta interagem. Mas presencialmente, às vezes parecem um bando de crianças barulhentas em sala de aula. É a energia do encontro. Levanta para abraçar quem chega, pergunta se alguém quer água, arrasta a cadeira para aumentar a roda, toca o telefone de alguém. Ainda assim, o clube parece ser, sobretudo, um lugar de escuta. Todo mundo tem história para contar, um gosto para compartilhar, algo novo para aprender.
A convivência em um clube de leitura cria e estreita amizade. Pode ser um café da tarde, um tira-dúvidas sobre algo tecnológico, uma visita ao hospital. Seu Francisco seguiu sendo abraçado enquanto se recuperava de um acidente vascular cerebral (AVC) e até ganhou um Mário Quintana para ler no período em que ficou distante. Um mês depois, estava de volta. De ônibus, faça chuva ou faça sol, Seu Francisco está lá. Ele é quem leva o caldo de cana para o café do clube. Café e bolo completam o cardápio. Êba! Tem aniversariante do mês!
Mais:
De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro e Ministério da Cultura, com dados de 2024, o Brasil tem cerca de 93,4 milhões de leitores, como são consideradas as pessoas que leram ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa. Isso correspondia a 47% da população.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com 60 anos ou mais em 2024 era de 34,1 milhões de pessoas, um aumento percentual de 53,3% em relação a 2012. A projeção é que em 45 anos, essa população seja cerca de 37,8% da população do país, ou 75,3 milhões de pessoas idosas.
Fechada em 2014 para reforma, a BECE foi reaberta em 2021. Em março deste ano, completou 159 anos. Funciona na Avenida Presidente Castelo Branco, 255, ao lado do Centro Cultural Dragão do Mar. Horários: terça à sexta-feira, de 9h às 20h, sábado e domingo, de 9h às 17h.
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