Garotas à frente

Numa cena predominantemente masculina, mulheres roqueiras sofrem com diversas camadas de machismo. Elas até denunciam e apontam caminhos, mas pouca gente parece estar disposta a ouvi-las.

Por Jack de Carvalho

Fortaleza, século XXI. Depois de dizer “não” mais de uma vez à investida de um homem em um show de rock, Maria* (nome fictício) foi beijada à força por ele durante uma “roda punk”. A importunação sexual foi cometida em um dos momentos mais simbólicos da liberdade, irmandade e êxtase que o rock nos proporciona. O que para a Justiça é um crime tipificado no artigo Art. 215-A da Lei 13.718/2018, para o agressor era apenas o seu desejo acima da vontade de uma mulher, que àquela altura era para ele um objeto. Algo com o que se podia fazer o que bem se entendesse. A vítima pediu ajuda à produção do evento e foi acolhida. Ele foi retirado do local argumentando que “ela tá sozinha e solteira, eu sou um cara legal”, segundo uma testemunha que também não será identificada por questões de segurança. 

“Girls to the front” (Garotas à frente, em inglês) foi um chamado popularizado pela banda estadunidense Bikini Kill. Formada por mulheres nos anos 1990, a mensagem tem dois objetivos: fazer com que mulheres pudessem ver mais de perto o palco onde outras se apresentavam – e até se inspirar nelas, e,  fazer do ambiente um lugar mais seguro diante de alguns episódios de ódio contra a presença de mulheres na cena com discursos libertários. Em um mundo misógino, este chamado segue necessário.

Bikini Kill no palco. Foto: Kathi Wilcox

Quando a cena rock exclui

Ter seu corpo respeitado, sua opinião ouvida e seu gosto musical não ser questionado. Direitos que toda mulher tem, independente de qual estilo musical, e que fazem parte de uma lista de coisas que mulheres da cena rock de cearense lutam até hoje. “O movimento, que é de contracultura e que ‘abraça os excluídos’, ainda tende a excluir as mulheres, invalidar, diminuir ou silenciar suas pautas”, afirma Kerol Darling. Moradora da Região Metropolitana de Fortaleza, ela está na cena há décadas e diz lembrar de pelo menos três casos recentes de machismo tendo como vítimas crianças e uma mulher adulta. 

Segundo ela, tanto as pessoas responsáveis pelas crianças quanto a mulher adulta denunciaram publicamente os casos, mas há “aquela passada de pano”. Esse silenciamento diante de uma atitude machista é, segundo ela, ainda mais forte quando a pessoa machista tem alguma “função” na manutenção da cena, seja um músico ou algum empresário”.

Para Darling, combater o machismo na cena passa por, primeiramente, dar voz às mulheres, escutá-las, credibilizá-las, enquanto suas queixas e necessidades. Depois: criar um ambiente seguro fazendo elas sentirem que podem frequentar sem  sofrer assédio. “Ainda existe gente que interroga mulheres, testando o conhecimento sobre banda A ou B. Muito mais interessante do que interrogar alguém sobre seu conhecimento musical é encorajar que escute, que conheça bandas e que se sinta acolhido”, defende. Ela acredita que oferecer suporte e mentoria, workshops e oficinas que incentivem mulheres a tocar instrumentos são estratégias para fazer a cena mais acolhedora.

Discurso sem prática

Falar sobre o protagonismo para as mulheres tem sido mais discurso do que prática. É o que pensa a historiadora Ariane Paixão, mulher negra e pesquisadora da relação entre os movimentos punk e riot girl com o protagonismo feminino. “Quando a gente olha para o palco, continuamos vendo o perpetuar dessa cena que é masculina, em sua maioria branca. O poder e os micropoderes estão nas mãos desses homens. Vejo e revejo a ausência de mulheres nos espaços e nos espaços de poder mesmo”, diz.

Ariane vê o underground como espaço de expressão da capacidade criativa das pessoas,  a música como uma forma de protagonismo e expressão, mas diz que não está aberto para mulheres. Segundo a pesquisadora,  as mulheres poderiam ocupar mais espaços, inclusive na produção, logística e economia criativa na cena se houvesse abertura. Afirma ainda que não há um cuidado de criar um lugar seguro nos festivais para as que são mães, companheiras e filhas. “Lugar seguro sob a ótica feminista, que é para além do não ser assaltada. É poder ir pra frente do palco, é ter um banheiro confortável, por exemplo. Não vejo o cuidado de pensar na equidade”, explica Ariane.

Em suas pesquisas, Ariane identificou que o punk rock foi um subgênero do rock fundamental para elaborar uma nova postura do feminino dentro do rock. “Ele tem raça e classe social, forjado pela juventude periférica e operária que consumia teorias marxistas e anarquistas. As falas ‘punks não são machistas porque somos todos iguais’  se repetem  nas entrevistas da minha pesquisa”, pontua.

Cursando mestrado na Universidade Estadual do Ceará (UECE), seu foco hoje é o movimento riot girl,  segundo ela surgido  junto com as publicações de Judith Butler “Um Problema de Gênero” e Naomi Wolf “O Mito da Beleza”. “Isso conflui com a onda da interseccionalidade no feminismo, há uma mudança de se entender mulher no rock. Não consigo perceber um movimento feminista na cena local de 1996 a 2010, mas consigo ver outras posturas feministas e a percepção que mulheres dessa época já tinham como, por exemplo, que homens viraram as costas para quando bandas de mulheres subiam no palco”, aponta. 

Inspirar e resistir

Entre palco e backstage, Tina Paulo faz parte da cena musical cearense há pelo menos 25 anos. Um dos episódios de machismo narrados por ela ocorreu há mais de 15 anos,  dentro de uma loja de instrumentos. Ela chega acompanhada do então namorado, especifica detalhadamente o modelo de guitarra que quer ver, mas quando o vendedor traz o produto para ser testado entrega para quem a acompanhava. “Não, eu sou baterista. Não é para mim, é para ela“, disse o rapaz ao vendedor. Diante de uma situação como essa, é comum esperar que na frase seguinte do texto tenha a palavra “constrangimento”. Mas quando o machismo está tão naturalizado no comportamento cotidiano, ela esse sentimento nem existe. 

“O feminismo está sendo importante para combater o machismo dentro do rock. Não é à toa que precisamos fazer coletivos para fazer festival com pelo menos uma mulher em cada banda neste festival. Porque já teve evento com 60 bandas que eu contei apenas oito mulheres, sendo que cinco eram da mesma banda”, diz Tina. A musicista afirma que mesmo casos mais graves, como o de homens respondendo por violência doméstica de acordo com o que diz a Lei Maria da Penha, as pessoas acabam “passando o pano”. “Os homens protegem e defendem uns aos outros. Mas as mulheres estão denunciando cada vez mais, mesmo com medo”, afirma.

A sexualização e o fetichismo também estão aqui. “A gente é movida por música, como os homens também são. Mas parece que eles não aceitam nossa presença nesses locais e, quando aceitam, é de uma forma sexualizada, tem que estar quase pelada, não pode falar de feminismo. As mulheres que vão aos shows precisam estar com seus companheiros para serem respeitadas”, diz. 

Para mudar esta realidade, Tina Paulo acredita que é necessário denunciar sempre o menor ato de machismo e misoginia que seja. “Acredito que é preciso dar credibilidade à denúncia das mulheres, não taxar de loucas. E as mulheres se unirem contra esse comportamento”, defende.

Aliadas

“Se não são as próprias mulheres compartilhando e apoiando o trabalho das outras, a gente não consegue se sobressair”, diz Juliane Lima, da banda Terra Mórfica. A musicista  afirma que mulheres se veem desafiadas a passar pela aprovação masculina para se sobressair na cena. E mais: a busca pelo controle sobre a expressividade feminina é real. 

“Tem sempre aquele comentário antigo de ‘no rock não precisa mostrar a bunda pra fazer sucesso’. Então se a mulher apresenta algum tipo de nudez, vêm comentários machistas falando que está querendo chamar atenção. Isso enquanto eles consomem vários artistas homem que cantam sobre sexo e outras coisas bem eplícitas e fazem sucesso. Mas quando é uma mulher, é julgada”, conclui.

Alinne no palco com a The Knickers. Foto: Divulgação

“A mulher  que toca, que produz, que está na técnica vai ser sempre olhada como menos competente. Isso não mudou desde quando eu comecei no underground”, diz Alinne Madelon,  professora de dança do ventre e que por 15 anos foi vocalista da banda The Knickers. Ela acredita que um dos caminhos é a reeducação, espaços na cena com homens dispostos a escutá-las sobre como se sentem. Para ela, as mulheres devem ser as grandes aliadas umas das outras. “Mulheres que empoderem outras mulheres dizendo ‘olha, o que você está passando é errado. Isso tem nome: é violência’”.

Mais: leia o artigo Da representação da mulher nas composições da banda norte americana Bikini Kill escrito pelas pesquisadoras Juliana Valeri Simão Trevisan, Brenda Ribeiro de Carvalho e Larissa Medeiros Marinho dos Santos.

Para denunciar violência doméstica ou de gênero

Disque 180

Casa da Mulher Brasileira em Fortaleza

Recepção: (85) 3108.2992 / 3108.2931 – Plantão 24h

Delegacia de Defesa da Mulher: (85) 3108.2950 – Plantão 24h, sete dias por semana

Centro Estadual de Referência e Apoio à Mulher: (85) 3108.2966 – Segunda a domingo (exceto feriados), 8h às 20h

Defensoria Pública: (85) 3108.2986 – Segunda a sexta, 8h às 17h

Ministério Público: (85) 3108. 2940 / 3108.2941 – Segunda a sexta, 8h às 16h

Juizado: (85) 3108.2971 – Segunda a sexta, 8h às 17h

Endereço: Rua Tabuleiro do Norte com Rua Teles de Sousa. S/N

Bairro: Couto Fernandes  – Fortaleza

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